Música, memória e o mal de Alzheimer: um vídeo gravado por Pepe Almedo, psicólogo, musicoterapeuta e guitarrista da banda SoundBay, diretor e fundador do Música para Despertar, mostra o imensurável poder da música. Esse vídeo foi gravado em 2019, em Valência, Espanha, na casa de repouso Muro de Alcoy, tem como personagem principal Marta C. Gonzáliz Saldaña (Marta Cintra), bailarina espanhola que na década de 1960 fundou e dirigiu seu próprio bale em Nova Iorque, o Rosamunda, sendo primeira bailarina, coreógrafa e diretora do mesmo.
Esse vídeo mostra a emocionante e arrepiante reação de Marta (falecida em março de 2020), que sofria de Alzheimer à época, ao ouvir a canção “O Lago dos Cisnes”. Nele são intercaladas e combinadas as reações da bailarina ao ouvir a música com as de uma apresentação de Marta nos anos de 1960.
A música evoca emoções e memórias, razão pela qual a musicoterapia tem sido usada, com muito sucesso, no tratamento de pessoas com mal de Alzheimer. Músicas diminuem a agitação do paciente e melhoram a comunicação e os relacionamentos interpessoais.
O Dr. Borna Bonakdapour, neurologista da Northwestern Medicine e músico realiza pesquisas sobre como a intervenção musical afeta o cérebro de pessoas com demência. Ao utilizar música no tratamento de pacientes com Alzheimer o pesquisador busca por áreas e redes do cérebro que estão intactas para servir como pontes e ajudar as áreas que não estão funcionando bem. Ainda segundo Dr. Bonakdapour, cantar pode ser uma ponte para os pacientes se comunicarem melhor por meio da linguagem. A natureza rítmica da música pode ajudar as pessoas a andar melhor.
A doença de Alzheimer tem evolução e progressão no cérebro em um padrão. Em geral começa nas áreas do cérebro responsáveis pela memória e termina no tronco cerebral, que tem um papel crítico no controle do coração e dos pulmões na deglutição. A memória de longo prazo da música permanece intacta até os estágios finais da progressão da doença, pouco antes da doença atacar o tronco encefálico. Atualmente, não se sabe por que a doença de Alzheimer afeta essa área por último. A teoria por trás da musicoterapia como meio de reabilitação, é que a ativação dessa área cerebral pode melhorar o humor e o envolvimento social em pessoas com demência.
Dr. Jeff Anderson, professor associado de Radiologia da Universidade de Utah e colaborador do estudo “Como a música ativa regiões do cérebro poupadas pela doença de Alzheimer”, acredita que a música explora a rede de saliência da cérebro que ainda está funcionando relativamente.
Trabalhos anteriores a esse demonstram que o efeito de um programa de música personalizado no humor de pacientes com demência. Este estudo se propôs a examinar um mecanismo que ativa a rede de atenção na região de saliência do cérebro. Os resultados oferecem uma nova maneira de abordar ansiedade, depressão e agitação em pacientes com demência. A ativação de regiões vizinhas do cérebro também pode oferecer oportunidades para retardar o declínio contínuo causado pela doença.
Durante três semanas, os pesquisadores ajudaram os participantes a selecionar músicas significativas e treinaram o paciente e o cuidador sobre como usar um reprodutor de mídia portátil carregado com a coleção de músicas auto selecionada.
Usando ressonância magnética funcional, os pesquisadores visualizaram as regiões do cérebro que se iluminavam quando ouviam clipes de 20 segundos de música versus silêncio. Eles tocaram oito clipes de música da coleção de músicas do paciente, oito clipes da mesma música tocada ao contrário e oito blocos de silêncio. Depois compararam as imagens de cada varredura.
Os pesquisadores descobriram que a música ativa o cérebro, fazendo com que regiões inteiras se comuniquem. Ao ouvir a trilha sonora pessoal, a rede visual, a rede de saliência, a rede executiva e os pares de rede cerebelar e corticocerebelar mostraram conectividade funcional significativamente maior.
Este achado é uma evidência objetiva mostra, visualmente, que a música pessoalmente significativa é uma rota alternativa para a comunicação com pacientes que têm a doença de Alzheimer, segundo Norman Foster, diretor do Centro de Cuidados de Alzheimer na Universidade de Utah e principal autor do artigo “Os caminhos da linguagem e da memória visual”. Nesse artigo os autores discutem como as vias ligadas à linguagem e à memória visual são danificadas no início da doença e afirmam que programas musicais personalizados podem ativar o cérebro, especialmente para pacientes que estão perdendo contato com o ambiente.
No entanto, esses resultados não são conclusivos. Os pesquisadores observam o pequeno tamanho da amostra (17 participantes) para este estudo. Além disso, o estudo incluiu apenas uma única sessão de imagem para cada paciente. Ainda não está claro se os efeitos identificados neste estudo persistem além de um breve período de estimulação ou se outras áreas de memória ou humor são aprimoradas por mudanças na ativação neural e conectividade a longo prazo.
Segundo Anderson, em nossa sociedade, os diagnósticos de demência estão crescendo como uma bola de neve e sobrecarregando os recursos ao máximo, disse Anderson. O autor completa alertando que ninguém diz que tocar música será uma cura para a doença de Alzheimer, mas pode tornar os sintomas mais controláveis, diminuindo o custo dos cuidados e melhorando a qualidade de vida do paciente.
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